| La Mancha |
Em algum um lugar do HPS, cujo nome ora me escapa, vive um escrevedor, desses de bisturi na mão e pena na outra.Front page
Em defesa dos pobres de escritos.
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Domingo, Junho 29, 2003
Baile de MáscarasOntem fui a uma festa a fantasia. Era um baile de máscaras da faculdade de medicina na qual cumpro pena. Nada mais que uma corriqueira desculpa para enfurnacar a fuça de qualquer coisa alcoólica. Algo trivial aos fins de semana de nossos adoráveis coleguinhas. Das relações sociais, digamos dissimuladas ou até mesmo quiméricas, entre as figuras que ilustram nossa rodinha de interação vocês devem estar fartos de adjetivos. Todavia, a festa em questão era a ilustração dos limites de mentes parcas e intelectos flácidos perante a existência e as relações interpessoais. Todos os fantasiados (melhor seria fantasiosos) viviam um momento de auto-rejúbilo, venerando suas próprias fantasias. Nada mais aceitável, uma vez que a indumentária é preparada com cautela e muito esforço, visando a estima de terceiros, desconhecidos inclusos. Na verdade, a veste é eleita em profecia à aceitação de outrem, trabalhada alterando oniricamente o ponto de menor valia do fantasiado. Isso os faz sentirem-se como um mimo aos olhos dos outros. Infelizmente, a dura realidade condena às trevas do ostracismo todos os ilustres desconhecidos que adoram a imagem fantasiosa de si mesmos, a qual é, na verdade, nada mais que uma ilusão aos próprios olhos. Ninguém está pouco se lixando para sua fantasia. E se alguém parece que está, está fingindo, com alguma outra intenção. Bom, La Fontaine aparte, pensemos no significado deste símbolo. As pessoas vivem mergulhadas em seu próprio ego, achando a própria existência a coisa mais natural e sincera que existe no cosmo. Regozijam-se de seus eus, julgando-os, além de reais, únicos e diferenciados, vivendo a plenitude de seu egoísmo até os ossos, e adorando isso. Há, porém, mais de seis bilhões de seres que se julgam importantes o suficiente para continuarem confiando em seu próprio egocentrismo. Seis bilhões que se cagam para o ego dos outros, confiando piamente em seus próprios julgamentos. Será, assim, que diante de tantos mundos, tantas vidas, tantos egos, você é assim, tão importante quanto acha que é? Se a resolução ou não de seus problemas não irá alterar, em absolutamente nada, a condição do tudo, será que eles são, assim, tão problemáticos? Afogados em meio à gigantesca multidão, a única prova de nossa real importância para nós mesmos é nosso sentimento, não nossas máscaras ou nossa fantasia. Assim, só existimos quando sentimos, não quando pensamos. O pensamento é somente uma parte da emoção. Como disse Damásio, "sinto, logo existo". Essa breve existência deve ser marcada pelos sentimentos que tivemos. Cabe a nós, tão somente, escolher o caminho que nos levará ao sentimento, assim à individualidade e à existência. Talvez por isso eu leio Tolstoi ao invés de farmacologia. Acho que reavaliar as perspectivas do próprio eu fantasioso, de suas prioridades, pensar e, finalmente, sentir epifanicamente, é um pequeno começo para poder se dizer: Eu existo. Quinta-feira, Junho 26, 2003
Mediocridade (Esmagadora)Preciso de mais lirismo nessa merda de vida Mais lirismo e menos tiazolidinodionas! Tenho absoluta incapacidade de abrir o livro de farmacologia. Pra que inventaram essa porra?! Antes que todo o mundo vire do avesso e morra de pneumonia, infarto ou com a barriga cheia de vermes. Antes que não se cure uma só doença, a eu estudar essa porcaria de farmacologia! De mártir tenho pouca, ou nenhuma tendência. Não pretendo sacrificar meu bom gosto decorando tudo acerca do controle hormonal do aparelho reprodutor feminino. Se não quiser engravidar, não trepe!, ou não venha falar comigo, não pretendo saber nada disso, nem nada de muitas outras coisas também. Definitivamente, diferente de meu bisavô, eu nasci para um destino manso... Queria estudar a linhagem de um samurai japonês, regado a chá quente, ao sopé do Fuji, Surfar a onda perfeita, ao som de hula-hulas, numa praia havaiana Rever a existência às margens do Reno, Subir ao topo de uma montanha nepalence, respirando o frio oxigênio engarrafado dos alpinistas, Descobrir um novo planeta, contemplando os céus em um observatório na Finlândia, Hackear um banco suíço, Vender flores em um barco da feira de Burma, Talvez, meu Deus, "ser um monge no Tibete ou, não sendo possível, gângster em Chicago muito perto de Vós ou com a alma por conta do diabo. Porque meu coração (também) não suporta o meio termo das coisas:" Sim, em "ou muito ao mar, ou muito à terra", Também prefiro o mar! Medicina ComédiaOlho para minha prateleira de livros médicos, para a qual, a propósito, tenho dado mais atenção que o desejado. Em meio a tomos de cirurgia, pediatria, patologia e semiologia, está, por engano, a Divina Comédia. O que fez Dante deixar a companhia de Tolstoi, Goethe, Dostoievski, Gogol, Cervantes e o, não menos importante, Alexandre Soares Silva, entre muitos outros? Será realmente um equívoco? Ou será, pois, a fuga propositada de um filho pródigo, enciumado pela maior atenção dada a seus primos burros? Terça-feira, Junho 24, 2003
Certa Vez...Certa vez alguém disse: Religiões são como pirilampos, só brilham onde há a escuridão. E eu, mesmo sem concordar, logo lembro de algo que outro disse: Se um homem aprendeu a pensar, pense ele no que for, estará sempre pensando em sua própria morte. E que verdades há, se existe a morte? Assim, como uma coisa pode não ser a solução mais racional para a outra? Acho que religião é o mais brilhante pensamento de alguém que, angustiadamente, aprendeu a pensar... Sexta-feira, Junho 20, 2003
Xixi RebeldeNão sei se já notaram isso, é muito provável que sim, mas a diurese parece ser a função fisiológica que menos se adequa às leis sociais. A bexiga parece ser uma criança levada, ou mesmo um adolescente daqueles bem revoltados contra os pais, fazendo tudo contra o bem estar cívico de seu dono. Um exemplo fácil são as gotinhas de urina que cismam em escapar uretra afora, principalmente durante os espasmos gargalhantes de mancebas regozijantes. Um grande balde de água, quer dizer, de urina fria. Durante uma viagem de automóvel, a vontade de urinar segue, também, uma hipérbole invertida, sendo máxima nos primeiros minutos, decrescendo ao transcorrer da jornada. Infelizmente, a diminuição não pode, muitas vezes, ser apreciada, uma vez que, sob protesto dos outros viajantes, somos obrigados a parar. _Mas não tem nem dez minutos que saímos! Porque não foi ao banheiro em casa? _Não adianta. A lei diz que a vontade vem quando se cruza o trevo de Ouro Preto, não antes, não depois... Independente do tempo que faz entre a última esvaziada. Todavia, a manifestação mais grave do sistema urinário parece ser mesmo o cinema. Não sei o que eles colocam no ar condicionado, mas parece que formamos toda a urina da semana sentados, confortavelmente, diante da telona. Quanto melhor o filme, maior número de vezes precisamos ir ao banheiro. E quando o filme é realmente ruim, não sentimos nem uma pequena vontade, daquela que ajudaria a passar o tempo em calvário diante de uma monotonia que desafia as leis do tempo e espaço. Para se ter uma idéia, durante o Gladiador tive que usar a casinha oito vezes. Muitas das quais era alarme falso. Antes de ver O Senhor dos Anéis II, fiquei dois dias sem beber um copo, sequer, de água. Apesar disso, fui ao banheiro cinco vezes, e acabei indo parar no hospital e tomando três unidades de soro na veia. Já o filme Godzila marca minha história como a uma hora e meia mais longa de minha vida. Apesar de haver bebido três coca-colas de meio litro, não senti uma gota de vontade de me refugiar diante do divertido mictório, entretenimento muito mais interessante que a película em questão. Assim, concluo: Se o filme for realmente bom, espere sair em DVD, instale todo o sistema no banheiro e pronto! Mas para os ansiosos, passar uma sonda urinária antes de ir ao cinema parece ser a opção mais justa e barata. Só tome cuidado com os gelos que sobram no fundo do copo quando esvaziá-la no copo do Mc Donnald´s. Deixe o guaraná bem diferenciado. Segunda-feira, Junho 16, 2003
Mais Sartre, Menos ProzacPobres existencialistas franceses. Mergulhados em toda sua chatice existencial, bebiam vinho e fumavam languidamente às margens do Sena, numa perfeita postura intelectual. Sofriam horrores tentando desconcertar os paradigmas dos que se aventuravam a adentrar sua importunante literatura. Mal sabiam eles que padecia de um problema psiquiátrico sem cura, segundo esses médicos. Sartre escreveu maravilhas literárias em um livro, tentando descrever uma patologia que hoje os geniais psiquiatras classificam de transtorno de despersonalização. A náusea. Não. Os existencialistas não eram franceses chatos querendo aborrecer o próximo. Eles realmente sofriam com seus conflitos. Sim, a psiquiatria é genial. Basta classificar qualquer manifestação psicológica, ou mesmo literária, como uma doença e dizer: Pouca atenção tem sido dada ao tratamento de pacientes com transtorno de despersonalização. No momento não há dados suficientes sobre o regime farmacológico específico a empregar. Como dar pouca atenção à única chance de se acordar para a vida? Benzamo-nos a Deus por não haver remédios paliativos para esse tipo de "patologia" mental, como há para os outros que, ao invés de curá-los, diminuem seus sintomas. Psicotrópicos são, sozinhos, erros imperdoáveis. É como se ter um espinho no dedo e, ao invés de retirá-lo, anestesiar a área dolorosa. Assim, não se pode usar a mão como antes, e invariavelmente seu dedo infeccionará e ficará, com o tempo, deformado e sem função. O mesmo que acontece à psique, com a mente, com o esclarecimento de quem só toma o remédio, sem tratar o problema, psicológica ou filosoficamente. A náusea é, por si só, a cura para uma existência superficial e ilusória. Ela gera a busca por alguma filosofia de vida mais embasada em valores palpáveis, sinceros e justos, libertando a vida de uma noção infantil e ilusória de realidade. Desrealização não é o transtorno. O desengano é, sim, o período onde ela não está presente. É absolutamente compreensível o caráter de irrealidade e estranheza vinculado à experiência consciente. O questionamento é algo lindamente humano. Todavia, não precisa vestir-se de preto e ir fumar um cigarro, esparramando-se sobre um banco de praça com um livro encardido do Camus em mãos, ignorando qualquer sentido em viver. Acho que, o mais razoável, é atrelar-se a esses únicos momentos de vida existentes no tempo presente, e procurar se contentar em enxergar além da maioria das pessoas, podendo, assim, não levar a vida tão a sério. Afinal de contas, nada é tão fora de moda quanto o sofrimento existencialista. Quinta-feira, Junho 12, 2003
Conto VelhoEssa é uma releitura minha de um conto de um famoso escritor. Não direi nada a respeito, se você souber quem é, diga. Perdoem-me o estilo, escrevi isso há mais de três anos, quando ainda era um pimpolho nas letras. Vivia uma fase nordestina, um bocado católica. Um conselho: Leia isso com sotaque do nordeste. Soa com uma ritmicidade interessante.. Perdoem-me, se isso também for um grande despautério. E eis que aqui começa o: O Dia de Nosso PadrinhoO nome do homem era Severino de Aracajú da Paixão de Jesus Cristo. Homenagem de sua mãe às duas pessoas que mais admirava que já pisaram por essa Terra. De parecido com o Lampião ele só tinha a cegueira num dos olhos. De parecido com nosso senhor, tinha os pés no chão, pobreza de dinheiro e riqueza de alma. Só que disso não sabia. Severino tinha nada não. Só era dele um jegue de nome Seu Jumento de Washington, ferrado com três ferraduras e manco da perna descalça. Tinha, também, um chapeuzinho de palha que já tava quase que todo destrançado. E no meio dessa tapação de sol com a peneira, o homem tinha uma coisa de que se importava de verdade: Maria Conceição da Aparecida de Fátima, sua mulher. Maria tinha nada também não. Os olhos de um verde sofrido com o tempo, pele engrossada pelo facão de cortar cana, sola do pé quase grossa que nem uma chinela e um grande amor pelo seu moço. Mais nada não. Só tinha um casal de galinhas d'angola, por quem nutria um amor materno. Eram boas, também, pra acabar com os escorpiões de dentro do barraco onde moravam. De comida, só o arroz com feijão e carne de algum bicho que vinha na marmita do canavial. E, vez em vez, quando a fome apertava, e a noite era longa e quente, tinha ovo da galinha pra cozinhar e comer bebendo garapa, de cana buscada com a ajuda do monte de osso que era Seu Jumento. Fora isso, só mandacaru com poeira mesmo. Só que nesse dia era diferente. Era dia de nosso padrinho, Padim Ciço. Dia de trocar presentes com as pessoa por quem sentimos querência. Severino tava que duma doidice só pra arrumar um presente pra sua belezura. Ele queria era mostrar o tamanhão do amor que tinha por sua nêga. Já Maria tava num fogo arretado pra arranjar um obséquio pro seu príncipe, que tanto amava. Como arrumar alguma coisa, se nenhum deles, os dois, tinham era nada? Primeiro foi João, no lombo do jegue Seu Jumento de Washington, pra cidade de Glória de Nossa Senhora. O dia de trabalho tinha sido muito, o sol era forte e o chapéu era pouco. Severino não sabia se o jegue manco era jegue ou lesma morta. Ele caminhava numa vagaresa que perecia puxar toda a secura do Nordeste nas costas. A única venda que tinha era a de Seo Paulino Silveira de Jesus. E lá num tinha quase que nada: umas dúzia de charque pendurados, ovos, dois facão, sabão, pano, fósforos, cigarros, corda, três peão e duas gaiolas. As gaiolas eram bonitas de dar gosto. _Cumé que faço pra'rumar umas gaiola dessas pro modi di dá pra minha fofura? _Comprano! Severino, sem dinheiro nem nada, trocou no jumento as gaiola. Voltou para casa com as banguela de fora, cheio de felicidade por poder dar pra sua esposa presente tão bonito. Maria, também, tivera idéia boa. Saiu andando que numa carreira de rápida. Chegou na cidade antes mesmo que seu marido. Ela, que levara consigo o casal de galinhas, foi direto pra casa do ferreiro. _Tá'qui as galinha. Fica as duas por essa ferradura. E assim ficou. Maria voltou numa felicidade de dar gosto, pisando pelo chão com seus calos de amor. Andava com um sorriso leve que chegou até a espantar a feiura de sua pele grossa feito couro de cobra e dos cabelos cheios de poeira da terra seca do Nordeste. Chegou logo, se banhou no açude, escovou os cabelos, passou olho de babaçu e ficou linda pra encontrar seu homem. Os dois jantaram uma canja que quase que num tinha frango. Chegou a hora do presente. Cheio de charmes e olhares belos, ela mostrou a ferradura. Uma belezura. Logo veio ele, meio assustado, dando as gaiolas. _O que faço com as gaiolas, se vendi as galinhas pra te comprar a ferradura? _O que faço com a ferradura se vendi o jegue pra te comprar as gaiolas? Os dois, antes sem nada, agora com menos ainda, se riram com leveza. _Engraçada essas peças que prega o amor. As lágrimas que pingavam dos olhos dos dois, pareciam lavar, naquela noite, a secura e a tristeza daquele Nordeste carrasco. O casal deixou de lado os presentes e a canja e se amaram na rede. Amaram com um amor novo, mais forte, nascido dum sacrifício duplo, de uma tristeza feliz. Era dia de nosso padrinho, Padim Ciço. Segunda-feira, Junho 09, 2003
Essa porcaria de post foi, graças ao bom e amado Deus, retirada do ar devido a um lapso de bom senso deste que vos fala. Perdoem-me por haverem lido tamanha abobrinha. Sábado, Junho 07, 2003
Vicissitudes de uma Vida Embriagada
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