La Mancha
Em algum um lugar do HPS, cujo nome ora me escapa, vive um escrevedor, desses de bisturi na mão e pena na outra.

La Mancha

Sexta-feira, Maio 30, 2003

Hipócrita Prenhez


Odeio aqueles casais felizes que, narrando sua tediosa história conjugal, dizem que ficaram grávidos há seis anos atrás.
Como assim ficaram grávidos?
Ao meu humilde ver, a única pessoa de uma relação que emprenha é a fêmea.
A função do macho é ir lá, carcar a sujeita, deixar seu conteúdo genético naquele receptáculo e ir assistir televisão servindo-se de uma gelada cerveja, e não se preocupar com nada, até começar a pagar a escola do fedelho.

É a mulher quem vomita as tripas nos três primeiros meses, engorda setecentos e noventa e dois quilos, perde aquele corpinho para sempre, carrega um peso que aperta sua bexiga e faz doer a coluna por muito tempo.
Enquanto isso, o homem olha a bunda da vizinha, antes um poço de celulites, agora, mediante às condições atuais, uma tentação, e se ensaca com as chatices de grávida de sua grávida.

Após isso o parto, a cicatriz, internações, remédios, depressão, noites em claro.
Depois que o moleque nasce, ele se transforma em um demoninho sugador (literalmente).
Como se não bastasse estraçalhar a perfeita anatomia da genitalha da dama que deu-o à luz, esfrangalha aquelas oníricas pêras que antes, em vocação celestial, apontavam ao céu. Agora, após o efeito desses diabretes, miram o inferno.

Enquanto isso, o homem vai a reuniões de negócios, sai pra beber com os amigos e come a secretária.

A única pessoa que está perdoada de dizer ¿ficamos grávidos¿ é o Gugu Liberato.
Realmente acredito que o sujeito tentou emprenhar em sua própria barriga e, mediante à frustração, arrumou uma parideira para feze-lo em seu lugar.
Ele diz tudo em seu livro recentemente lançado na XI bienal internacional do livro:
Sou Pai, e Agora?.
Na verdade o título seria: Sou Guei, e Infelizmente Não Consegui Engravidar de Meu Bofe, Assim, Aluguei Uma Parideira, e Agora? mas a editora achou que seria menos aceito entre os leitores analfabetos devido à quantidade excedente de letras na capa.

Literatura de primeiríssima categoria.

Seu primeiro filho, João Augusto, é o ser humano (classificado assim supondo-se não ser filho legítimo de seu suposto pai) mais jovem a receber uma biografia.
Todavia, o Gugu diz que já encomendou outro neném, que desta vez será uma menina, independente do sexo que nascer, assim como o pai.
Essa terá seu livro entes mesmo de deixar o útero, contando as geniais aventuras de uma engolidoura de líquido amniótico mijado.
Interessantíssimo.

Voltando às placentas frias, a gestação é um privilégio calvárico fruto de milênios de carma acumulado em resultado do sadismo do uso dos decotes.
Pela detenção de um poder napoleônico, as senhoritas sofrem um martírio reprodutivo, enquanto a vida do homem é só de alegrias (nessa área).
Não me perguntem por que, a natureza é assim.
E não!. Não use um decote pois você não ficará grávido, Gugu Liberato.

Deixemos que elas carreguem o peso da criação que nós arrastamos os móveis e carregamos as malas.
Uma boa troca para tão pouco efeito colateral proveniente do ato que move nossas vidas.

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Quarta-feira, Maio 28, 2003

Responsabilidade


João XXIII, domingo.

_E ai doutor, beleza?
_Tudo bem. Você não deveria estar em repouso?
_Quê isso doutor! É isso mesmo que eu queria
te falar. Eu já estou me sentindo muito
melhor.
_Tudo bem, isso é ótimo. Agora volte para sua
maca que irá melhorar ainda mais.
_Ah, mas num precisa não, eu tô ótimo!
_Bom...
_E queria até te pedir pra me liberar.
Liberaí doutor!
_Infelizmente você ainda não está em
condições de deixar o hospital.Nem deveria
estar zanzando pelos corredores no estado que
está. Talvez daqui a uma semana.
_UMA SEMANA?! Eu tenho que ir AGORA! Já
disse, estou ótimo, não tenho mais nada!
_Não, não tem não... Só uma bala na barriga
cheia de sangue em volta. Olhe para você, mal
consegue ficar de pé. Cê tá doido cara? Você
ainda está em risco de vida, se não se deitar
pode ter uma hemorragia.
_Mas eu TENHO que ir!
_Pode esquecer, você vai ficar mais um longo
tempo aqui.
_Não posso! Eu tenho uma mulher e dois filhos
pra sustentar! Ainda tenho que fazer um
assalto hoje pra levar dinheiro pra casa!
_Bom, neste caso...

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Domingo, Maio 25, 2003

It´s not the begining



A morte já não mais me afeta como antes.
Me sinto imune à desgraça absoluta daqueles ilustres desconhecidos que fazem sua presença em ausência de vida.

Pacientes morrem a rodo no Pronto Socorro, acidentados e estraçalhados de formas inimagináveis pela mais sádica das mentes.
Para mim, ultimamente, isso tem o mesmo efeito de alguém que espirra ao meu lado, ou deixa cair o isqueiro.

Será que estou me tornando um porco insensível?
Será que serei aquele médico distante, com um hipócrita ar de ¿Eu sou Deus, e você?¿, que se lixa para a penúria do próximo, pensando fixamente no valor de suas ações da Vale do Rio Doce ou na flutuação do dólar?

Bom, espero que não.
Na verdade, a tragédia ao vivo é bem menos chocante que aquela assimilada por veículos de informação.
No hospital, quando um paciente morre ou chega morto, toda a equipe age com um ar de resignação, concentrando-se naqueles que ainda precisam de tratamento.

A calamidade que vem através de um meio de comunicação é muito mais humana e real que a fatalidade de um doente deitado na sua frente.
Quando se lê a respeito de algum acidente, o repórter escreve toda a história da pessoa, a condição revoltante na qual aquilo ocorreu, a aflição dos parentes e a culpa do bode expiatório.

Assim, todos nos colocamos no lugar desses desfavorecidos e sofremos com eles.

Todavia, quando o paciente está botando os buxos sobre uma maca fria de um hospital fétido de secreções de indigentes e bandidos, você sente uma incrível distância entre tudo o que acontece e sua própria vida.
É como se houvesse dois tipos de humanidade.
A sua e a deles.
Isso não atrapalha o tratamento, há piedade e compaixão da mesma maneira. Não há, porém, transferência ou qualquer relação de similaridade de sua parte para com aquela situação.
Ou seja, realmente acredita que aquilo não pode acontecer com você.

Enquanto há vida, lutamos com unhas e dentes contra o ceifador em negro.
Quando a vida se esvai, talvez por frustração com nossas limitações, talvez por certeza de que não havia mais nada a se fazer, nos reduzimos àquele estado de distância e abdicação a opiniões complexas.

Nas profundezas da psique, há uma consciência obsessiva que sempre nos diz que podíamos ter feito mais.
Junto dela, há uma sensação de inocência que gera, aos poucos, alienação.

Tudo está bem enquanto a segunda estiver ultrapassando a primeira e a forçada indiferença puder ser ratificada pelo sucesso no tratamento do próximo paciente.
Escudos frágeis, porém os únicos que ainda dispomos para esse tipo de coisa.

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Quinta-feira, Maio 22, 2003

O Amor e o Mal Gosto


Não sei se você já reparou, mas mais de 80% da arte presente no mundo tem como mote o amor.
Não sei se percebeu, também, que desses, quase 101% são asneiras de estupidez incontestável, desperdícios incríveis de papel, tinta, sílica e, principalmente, tempo.

O que leva a humanidade a escrever livros, poemas e canções sobre o amor desde que se sabe da existência das letras?

A falta de assunto, penso eu.

Você, fã da Britney Sperms e dos livros do Sidney Sheldon, que me desculpe, mas se houvesse um pouco mais de conexões entre o tico e o teco, certamente se interessaria, e preocuparia, com questões de maior relevância diante de sua existência humana, seu contato com a sociedade e de sua relação com a realidade.
E, talvez, menos a respeito das múltiplas faces de um amor perfeito, de quantas vezes fulano te ligou e se pode ligar pra ele agora, ou se espera mais um pouco pra não se dar por oferecida.

Acho que a arte pode, assim, ser dividida em duas:
1- Sleepers in Seattle e tudo a ele relacionado (mal gosto e falta de assunto).
2- Tudo não relacionado ao total e puramente ao amor (via de regra mais interessantes e diversos, apesar de em menor número).
Nota: Extrai-se da categoria 1 coisas decentes como Shakespeare ou Machado e muitos outros bem aventurados que, apesar de haverem vendido muitos livros por falarem de amor, têm como tema principal de suas obras a natureza humana e todo seu significado.


Tenho uma teoria sobre histórias de amor. Ou elas são feitas por pessoas sem cultura suficiente para escrever coisas que realmente importem; ou são feitas para pessoas sem cultura suficiente para ler coisas que realmente importem.

Assim, pense bem leitor amigo, se Aristóteles começasse a escrever sobre o amor entre um nobre e um plebéia, o que seria do mundo? Se Marx resolvesse falar sobre o amor não correspondido, o que seria do mundo? Se Spinoza dissesse tudo sobre como amar uma mulher em 172 lições, o que seria do mundo? Se Darwin vivesse em um cabaré, contanto suas aventuras com as meretrizes, e Nietzsche fosse um enamorado escritor de poesias de amor, o que seria do mundo?

Provavelmente um lugar inóspito, chato, cor de rosa e cheio de corações por todos os lados.

Sim, é falta de romantismo de minha parte.
E não, não acho o amor uma coisa inútil, se é que tal coisa existe.
Todavia, vale a pena botar lenha na cachola e caçar assunto que se preze, ao invés de assistir "Sleepers in Seattle" número 5037, ou ler algum desses romances chulos, estilo Karina (ou como quer que chame esses de banca de jornal).

Sim, a humanidade, quando se manifesta, é algo extraordinariamente incrível. Não é aquilo que se vê em "Sleepers in Seattle" e sim o que sobra de muitas obras em sua mente, que, mescladas, geram uma concepção de realidade muito mais cabal que a proposta pelas músicas dos Backstreet Boys ou pela novela das oito.
Pecados mortais, que deveriam ser proibidos sob pena de morte, são histórias infantis como Bela Adormecida, Cinderela e toda outras dessas vadias que agarram um príncipe encantado com bala na agulha e um cavalão importado, vivendo felizes para sempre.
Quando essas fantasiosas garotinhas crescem, querem de nós tudo que aqueles gigolôs afeminados eram nesses livros lindos e perfeitos. E nos enchem o saco por isso.

Como diria o Sr Silva, Se alguém usasse roupas tão ruins quanto a ruindade de Deepak Chopra e Celine Dion, à sua passagem cavalos sangrariam pelos narizes e hidrantes estourariam.

Assim, deve-se sempre, em qualquer que seja a ocasião, agir razoavelmente:
Apaixone-se, mas mantenha o bom gosto.

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Terça-feira, Maio 20, 2003

Sobre a Realidade e Suas Diversas Formas
ou
Pobres Esquimós



É incrível como a realidade se molda de forma distinta sob diferentes fatores determinantes.
Um deles é o frio.

Hoje mais cedo, fui tomar meu banho ,matinal.
Aqui na província de Granada, no inverno, faz um terrível frio. Principalmente ao amanhecer.
Assim, liguei o chuveiro e fiquei aguardando, do lado de fora do boxe, nu e trêmulo, enquanto a água se aquecia.

Infelizmente dei a heróica mancada de deixar a curiosidade, aquela que matou o gato, vencer minha tendência em não mirar o espelho nessa situação desfavorável.

Aquela coisa minúscula, quase subatômica, tentava se esconder de mim em minhas entranhas púbicas.
Um amontoado degradante de pelancas cianóticas, algo como que uma cabeça de tartaruga encolhida para dentro do casco.

Não! Aquilo eu não poderia agüentar. Era muita humilhação para as 6:12hs da manhã de uma terça feira.
Olhei novamente, já pensando em dar cabo à minha insignificante existência, quase nipônica.

Não havia mais sentido em viver! Tudo em que acreditara durante toda minha vida se encolhia mais e mais, quanto maior era o tempo sob o efeito daquele relento glacial.
Meus paradigmas se retraiam justamente sob meu olhar indignado.

Nada mais eu podia fazer.
Reduzi-me à minha infinita insignificância e adentrei as brumas do chuveiro.

Foi quando tudo mudou.

Aquele aconchegante calor foi, gradualmente, desacabrunhando minhas antigas convicções.
Com o tempo minha essência se dilatou, voltou ao normal e até melhorou sua dimensão humanitária.

Aquilo que ocorrera não era a realidade, era apenas uma forma equívoca de sua temperatura.
Isso para um habitante de um país tropical como o Brasil.

Foi então que, confortavelmente relaxado e aquecido pensei comigo:
_Pobres esquimós...

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Segunda-feira, Maio 19, 2003

O Idiota:
não do modo do personagem de Fíodor


Meu bisavô costumava dizer em suas crises de mal humor:
_Quem é burro que peça a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.

Acho pouco civilizado, usando a expressão de Sr Silva, imitar um vizinho rico que quer comer a sua mulher, a sua filha e todas as mulheres de seu bairro, só por que ele nos faz pensar que é feliz.

Porque a mocidade de nossa sociedade vive um vazio cultural enfadonho?
Porque os jovens desse país macaqueiam um protótipo estético posto por uma civilização fastidiosa e maçante que, assim como a nossa, não tem cultura?
Porque o ode ao vazio, ao nada, à casca pela casca, sem pensar no conteúdo?

O adolescente brasileiro, salvo as costumeiras exceções, me parece ser pouco mais imbecil que o apalermado mancebo normal.
Talvez porque seja difícil se identificar com modelos surgidos em uma sociedade decrépita, fraca e cega. Talvez por isso seja fácil manipula-los com ideais quiméricos, de desafiadora superficialidade, contudo de excelente apelo estético e psicológico.

Estupidez aparte, cegueira talvez, a futilidade que se intumesce hoje será a insignificância que imperará no amanhã.

Sem a intenção de polemizar, já o fazendo, o desabitado encéfalo destes guris, árido em cultura, os transforma quase que totalmente em animais, em busca da reprodução e satisfação de suas necessidades imediatas.
Hoje fui ao Shopping e me horrorizei com o que vi. Centenas de imberbes, ou até daqueles de fina penugem, vestindo quase igualmente sua indumentária de peças das mesmas marcas, da mesma maneira, e falando as mesmas asneiras:
_Ô vei, tipo que, cê fraga, eu, assim..., tipo que ela me deu um beijo e ai... cê fraga, eu fui e peguei...
_Nó... e, assim... é... é tipo... tipo que rolou mais lance?
_Queee isso... ou, queee isso, tipo assim que foi, e aí só... Depois eu tipo que cheguei na outra, cê fraga?

Fiz absoluta questão de ouvir tudo o que diziam os espectadores da Sony, Warner, Fox, AXN e etc.
Em meia hora de tagarelice, não disseram quase nada. Passando tudo em uma peneira ortográfica, restaria meia dúzia de frases mal formuladas e enfastiantes sobre a vida sexual mirim dos pobres mocinhos.
Quase morri de vontade de pergunta-los:
_E o verbo? Para onde foi?

Sinceramente espero que outros jovens estejam em suas casas lendo algo que se preze, enquanto essa maioria assina seu atestado de óbito cultural e doa, de ótimo grado, o sagrado cascalho arrebanhado por seus pais a um ideal frívolo, belicoso e colonialista, que só contribui para o incremento seu marasmo intelectual.
Assim, talvez, quem sabe o esclarecimento e a decência deixam de se evaporar ,de uma vez por todas, podendo ser algo mais tangível em algum futuro momento de nossa nação.

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Quarta-feira, Maio 14, 2003

Faça Você Também


Bem vindo, aperte os cintos e relaxe.
Está no ar: NOVAS FACULDADES DE MEDICINA ENLATADAS

Que alegria, o sonho de todas as mães do país agora já pode ser realizado!
Um novo ato deve ser adicionado à constituição de nosso país. Além do direito à liberdade, educação e saúde, todos os brasileiros terão direito à faculdade de medicina.
E por uma bagatela de milhas dos seus verdinhos mensalmente, seu filho também poderá estudar em nossa faculdade.

Nosso país já tem mais médicos que o indicado pela OMS, faculdades estão sendo fechadas por falta de condições para o ensino, mas admire-se, com um pouco de seu cascalho, tudo isso pode ser resolvido.
Nossa cidade já conta com uma novíssima faculdade de medicina, a universidade de Alfenas. Não se assuste com o nome, ela não veio para cá no lombo de um camelo. Uma filial, estilo franchising de Mc Donnald´s, foi aberta como um braço da ótima faculdade central, formadora de excelentes manuseadores da picareta.
Apesar de já estarem cogitando seu fechamento, não se assuste.
A UNI-BH, a Faculdade Promove e a Faculdade Pitágoras estão comprando os políticos necessários para abrir seus estupendos cursos de medicina para repor a falta.
Se você também se interessar em abrir uma faculdade de medicina, fale com nosso setor de compras.

E o melhor ainda não veio, você nem precisa fazer vestibular, estudar ou vir à aula (não temos professores mesmo). Basta depositar a quantia referente à nota desejada e pronto!
Forma-se, todo pomposo e orgulhoso, um novo Doutor.
As mães choram e as sogras se enchem de vaidade...
Não se importe com trivialidades como conhecimento, ciência, ética, seriedade, dedicação ou moralidade, você também terá um carimbo, vestirá branco e andará com um estetoscópio no pescoço, se souber o que é isso.

Conheça também nosso curso de medicina por correspondência e a novíssima residência médica em coluna social.

Viva o Brasil, a terra de oportunidade.

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Terça-feira, Maio 13, 2003

Coisas que Nunca Devem ser Feitas
Segundo Estatística do Pronto Socorro João XXIII



1- Nunca suba no telhado,
2- Nunca atire em seus próprios testículos,
3- Nunca beba líquido de limpar fogão,
4- Nunca introduza qualquer objeto no ânus sem uma boa ancoragem estilo OB,
5- Nunca atravesse a rua correndo na frente de um caminhão cegonha,
6- Nunca suba no poste de alta tenção,
7- Nunca mergulhe na piscina vazia,
8- Nunca coma torresmo antes de ser baleado (jejum de 12 hs no mínimo),
9- Nunca duvide da mira de um marido traído e
10- Nunca mire no poste do meio quando, pelo efeito diplópico do álcool, sua acuidade visual ao dirigir não for igual à de uma águia.

Não sinta sua liberdade tomada, se você sente vontade de fazer algo listado acima, confira a exatidão de reciprocidade entre seus sapatos e pés, e veja se calçou-os corretamente (50% de chance).
Se riu ao ler isso, bom sinal, não precisa conferi-los, eles estão corretos...

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Domingo, Maio 11, 2003

A Bondade Inerente ao Ser


Todo homem é intrinsecamente bom, até que se prove o contrário.
Esse contrario, todavia, é muito habitualmente ratificado.

De todos os pacientes que aparecem baleados no Pronto Socorro, mais de 90% arranja uma desculpa esfarrapada para o pipoco presente em suas tripas.
Desde os piores marginais, até os assassinos mais sanguinários, todos querem que acreditemos que são pessoas boas, caridosas, compassivas e desapegadas.

Outro dia atendia a um homem, desses com quem, se cursarmos na rua, mudamos rapidamente de passeio:
_O que aconteceu com você?
_Levei dois tiros na barriga.
_E porque você levou esses tiros?
_Num sei, a arma disparou.
Não? Jura?! É óbvio pelos mais profundos estudos da lógica que, se alguém leva um tiro, a bala provavelmente saiu disparada de um trabuco, a não ser que se tenha feito uma incisão e a inserido dentro da cavidade abdominal do sujeito, algo não muito provável. A única coisa que o bom samaritano esqueceu de contar é que seu grande amigo que portava o revolver mirando para seu pré cordio, acionou, muito que intencionalmente, o sistema que provoca os disparos.

Assim, costumamos dizer que todos os delinqüentes que chegam baleados com juras de filantropismo, benevolência e humanitarismo eternos, estavam rezando quando a bala os atingiu.

E não é que ontem chega um infeliz rapaz, sem graça até a alma, com uma bala na bunda, e quando perguntamos porque ele estava baleado ele diz:
_Eu estava saindo da igreja e uma bala veio e me atingiu.
Veio? Como assim uma bala veio? Ela é um ser individualmente dotado de vontade própria e capacidade de ação? A bala, como é sádica, ficou na porta da igreja esperando os beatos saírem, pronta para acertar um, só de sacanagem. Quando se deparou com uma bunda magra em sua frente, se lançou na epopéia de sua vida, penetrando profundamente naquela carne mole.
Coitado, estava rezando.

_Era uma bala perdida.
_Bom, se era perdida não é mais. Aqui ela bem entre seu intestino grosso e sua bexiga (radiografia). Vamos pra cirurgia consertar o estrago e retirar a safada. Quem sabe você não devolve ela pro dono?...

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Terça-feira, Maio 06, 2003

É de Graça


Segunda feira...
_E aí chegado, vão da uma lavada?
_Não, vão não.
_Lavaí chegado, é promoção, só quatro reau e nem te cobro o estacionamento...
_Porque você acha que eu lavaria meu carro com você, por quatro reais, se ele já foi lavado Sábado, e de graça...
_Que isso chegado, tem que lavar.
_Tudo bem, vamos fazer uma cirurgia na sua barriga também. Eu faço de graça.
_Mas eu não preciso.
_Nem eu preciso de lavar o carro...
_Vou dar uma olhadinha então, falow.
_...

Mais tarde.

_E aí chegado?!
_Ô cara, me desculpe mas eu não tenho dinheiro não. (Realmente não tinha.)
_Que isso, chegado, eu olhei o carro o dia inteiro...

Esse é o momento em que você diz uma coisa:

_Beleza, amanhã te pago em dobro...

Mas que queria dizer outra :

_Olhar é de graça. Pode olhar o tanto que quiser, não custa nada. Se olhar custasse, a bunda daquela garota que passou aqui há três minutos teria que te pagar uma exorbitância...
_Exorbi... o que?
_Você deveria se envergonhar e deixar de ser hipócrita. Dizendo que vigiou meu carro o dia todo, aposto que só dá as fuças pra estorquir dinheiro dos pobres e honestos cidadãos que aqui estacionam.
_Aí chegado, tá folgano. Eu num faço esse torqui não, meu negócio é vigiar...
_Só se for vigiar de você mesmo! Você é um mafioso do estacionamento. Vende proteção contra seus atos de vandalismo. Lugar de bandido é na cadeia!
_Que isso, num sô bandido não!
_É sim e estou chamando a polícia agora para te prender por ameaça e tentativa de destruição de bens privados!
_Destruição de bens privados?!
_É! O que faria ao meu carro se eu dissesse que não podia olhar ele?
_Então chama!
_Você não tem medo de ser preso?
_Não... Sabe aquele policial lá?
_Hum?
_Ele é meu cliente...
_Você lava o carro dele?
_Não... eu olho o carro dele de graça.

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Domingo, Maio 04, 2003

Minha Vida Metal


Aos treze anos de idade, como qualquer garoto imbecil, eu não era muito certo de o que queria da vida.
Apesar disso, tinha convicção de que meu destino impreciso poderia ser garantido ao abraçar uma causa qualquer. Algo digno, honroso e enobrecido, com um quê de ideológico e poético.

Assim, decidi ser metaleiro.

O primeiro problema era meu cabelo.
A juba não se distanciava em muito de um simples tapete peludo, daqueles dos anos oitenta, cheios de ácaros e uma inimaginável flora de fungos altamente alergênicos.
Desta forma, passei logo a deixa-los crescer, algo rápido e simples.

O segundo problema foi facilmente resolvido. Como não era muito mandatário de meu guarda-roupas, as vestimentas que por lá habitavam eram um tanto quanto felizinhas para um metaleiro podreira. Assim, tratei-me logo de comprar umas três camisas do Iron Maden, aquelas com um mostro bem grande fazendo caretas horríveis que, para o desespero de minha prima de seis anos, eu usava nos almoços de Sábado da família. Para compor a indumentária abri diversos rasgos, para o desalento de minha pobre mãe, em todas minhas calças jeans, e pintei meu al star branco de preto, com uma canetinha hidro-cor.

Após memorizar o nome de diversas bandas de Havy Metal como Metallica, Iron, Antraz, Bio Hazzard e aquela outra daqueles carinhas cabeludos, sem haver ouvido sequer uma música deles, fui ao show da banda Repolho Nervoso.

No concerto, em um buraco qualquer no centro de Belo Horizonte, meu fracasso como toscão foi absoluto. Apesar de meus quinze dias de experiência, e de minha mãe ter me deixado na porta da espelunca, tudo dentro do recinto me deixava apoquentado.

O odor de um incenso de mato que não sabia muito bem como definir nem de onde vinha; a música alta com letras, ritmos e sons incompreensíveis; o aspecto dos reais podrões, péssima estética, não muita gentileza, odoriferamente desafiantes.
Apesar disso tudo, tentei não decepcionar meus amigos e entrei com eles no moxe.

Indubitavelmente um erro.

Em minha primeira incursão ao miolo, levei uma canelada de uma bota imunda, com o solado sujo de fezes secas, as quais atingiram a exígua faixa de pele que havia exposta sob o rasgo da calça em minha canela.
Retirei-me imediatamente daquela posição e me isolei em um canto daquela pocilga, analisando as pequenas gotas de sangue que brotavam da escoriação que em mim surgira, temendo terrivelmente uma infecção, tentando lembrar quando tomara minha última antitetânica.
Todavia, ainda valente, persistia em minha missão de me tornar um cara metal e, para não decepcionar meus amigos, apesar de não me juntar novamente ao moxe, resolvi chacoalhar a cabeça perto do povo, um ato pacífico, porém de estrema tosquice.

Após umas poucas dez ou onze sacolejadas das curtas madeixas minha sinusite, mal que carrego desde que me compreendo por humano, atacou ferozmente, o que gerou, além de uma forte dor de cabeça, uma vertigem que me fez cair no chão.

Pronto, meu limite chegara. Aquela história de metal havia se acabado. Fui criado comendo caviar nas festinhas de família e, aos sete anos de idade, sabia muito bem que um Beaujolai Nouveaux somente deve ser tomado dois anos (se possível três) após sua data de engarrafamento, acompanhando uma boa carne vermelha e nunca um peixe.

Voltei para casa de taxi e, quando cheguei, mergulhei profundamente nos jogos de vídeo game. As únicas lembrança de meu dez dias de cabeludo eram a dor que permaneceu em meu pescoço, como uma forma de punição, ainda por uma semana após o incidente; e a cor de meu pé, preto, por andar com o al star na chuva desde a espelunca até o ponto de taxi. Acho que até hoje a pata ainda está meio encardida.

Definitivamente, eu não nasci pra essas coisas.

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