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Quarta-feira, Abril 30, 2003
Primo
Alguns pacientes politraumatizados perdem a consciência e o juízo de realidade momentaneamente, outros as perdem constantemente, outros nunca a tiveram.
Eles falam absurdos, alucinam, deliram e vivem a maior viagem...
HPS, um dia desses pra traz:
Paciente vítima de colisão caminhão X bicicleta.
Dados vitais estáveis...
O paciente chega ao hospital muito confuso e mal orientado, falando palavras desconexas e dificultando seu atendimento:
_Oi, comé que o senhor se chama?
_Tião.
_E aí Tião, tudo bem?
_Bão, uai!
_O senhor sente alguma dor.
_O volume! Corre o volume...
_O que?
_Manda do Chico trazer a peça. Tá trazeno?
_...
_Desamarra aqui minha mão. Vô imbora. Ai, num me fura não!
_Espera aí Tião, cê sofreu um acidente, está em um hospital e nós estamos cuidando de você. Tente cooperar.
_Solta aqui uai! Ah...Hum! Assim num dá não! Corre o volume logo, vai. Manda trazer a peça...
_Tião, você sabe onde está?
_Sei não uai. Onde?
_No Pronto Socorro.
_Solta a mão aqui pra eu ir imbora!
E assim foi, delírio atras de delírio, desde que chegou.
Enquanto estava sozinho em sua maca, sem ninguém ao lado, falava sozinho:
_Ô primo! Traz lá o negócio! Onde que tá caixa? Corre o volume logo...
E assim ficou o dia todo, até que me esqueci dele.
E o tempo se passou.
Outro dia, quando estava de plantão novamente, um amigo da clínica, o Paulo, chegou para mim:
_Você viu o Tião?
_Não...
_Ele tá ótimo, internado na SAT (sala de apoio ao trauma).
E lá fui eu, me lembrando de uma dúzia de delírios que ele havia cometido no dia em que chegou, os quais esperava contar a ele, para rirmos juntos...
_Oi primo, tudo bem?
_Bão!
_E aí, como vc passou esses dias?
_Bão! Que isso no seu olho?
_O que?
_Esse olhão estranho.
_Ah, não é nada não. São meus óculos.
_Chegou o pedido que eu tinha feito.
_Que pedido Tião?
_Uai, do óculos.
_O que?
_Chegou o pedido do óculos. Correu o volume?
_Ah, então tá bom... Tchau pra você Tião.
Voltei ao trauma com aquela inescapável pergunta:
Ou ele é adepto do dadaísmo, ou o Paulo o é...
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5:24 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Segunda-feira, Abril 28, 2003
Ossos do ofício
Já me ia à cama, após escrever o custoso post do dia, quando me deparei com uma foto minha com meu amado bisavô (que Deus o tenha), na noite de autógrafos de um livro de poesias do qual fiz parte...
Era a Academia Mineira de Letras, e eu assinava, todo pomposo, livros e livros dos quais eu havia apenas escrito uma poesia, na flor de meus oito anos...
A feroz crítica nem mesmo chegou a mencionar minha pessoa. Infelizmente, deixou esse tormento para um futuro distante, o qual ainda me aventurarei a sofrer.
Boa foto.
Espero só que, algum dia, possa repetir a dose desta noite.
Tomara que caminhar até lá não seja tão mais difícil que chegar no colo, como fiz da última vez...
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11:55 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Just Enterteinment
Não tem como negar, há coisas, que mesmo que nos saltem aos olhos diariamente, é muito raro que cheguemos a captar.
Freqüento, diariamente, a área hospitalar junto ao complexo do Hospital das Clínicas (HC). E, da mesma forma, todo-dia-mente, compro um par de chicletes ou uma coca-cola nos ambulantes que se proliferam por aquele nicho.
Não diferentemente, hoje, ao pagar os dois-reau por uma suculenta barra de chocolate, me apercebi da pândega que, a toda volta, estava, há muito consolidada.
Havia, na Av. Prof. Alfredo Balena, não somente mais barraquinhas que a feira hippie em dia de Domingo; mas também mais atleticanos que o mineirão em dia de jogo. Todos exibindo seu churrasquinho e lata de cerveja morna hospitais afora, encontrando conhecidos e correndo atrás dos ônibus.
É como se o ato de ir ao médico fosse uma espécie de evento social do povo. Assim, os visitante enfrentam a fila do Pronto Socorro como nos enfrentamos a de entrada do Palácio das Artes, com a melhor cara de do mundo.
O SUS deveria cobrar uma parcela dos ambulantes, que, certamente, faturam exorbitâncias em chicletes e cigarros-picados.
Há aqueles que vendem doces, os que vendem cachorro quente, os da pipoca, e até os mais ousados, vendendo sanduíches de lombo com sucos de frutas do Nordeste, feitos na hora.
E nesses tempos de recessão, já formou-se, inclusive, um sistema drive-thru. A barraquinha fica instalada estrategicamente no ponto de ônibus. Quando esse vem chegando, o cliente grita da janela o que quer, estendendo o dinheiro para fora. O vendedor intrega-lhe a mercadoria e o troco antes mesmo que o próximo assaltante ataque o altobus.
Tudo para a alegria dos enfermos.
Na enorme concorrência e luta para ganhar o freguês, eles nos bombardeiam com ofertas irrecusáveis petiscos viciantes, uma maldade de.
Outro dia, no caminho do meu carro até a porta do pronto socorro, me ofereceram três pedaços de lombo, uma dobradinha, uma dose de pinga e um mini espetinho de cebola de amostra-grátis. Chegando lá, tamanho era meu hálito que os três primeiros pacientes nem precisaram de anestesia.
Contei, desde a Alfredo Balena, até o Hospital Bias Fortes, seis baleiros, três pipoqueiros, cinco vendedores de churrasquinho-de-gato, quatro vendedores de bilhetes de loteria, três carrinhos de sorvete e 32 bingos eletrônicos posicionados estrategicamente, no caminho dos asilos.
Visto isso, não há como não pensar:
_Que mineirão que nada. Ir ao médico é a disneilândia do povão!
E quem foi que disse que não somos do ramo do entretenimento...
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11:12 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Quinta-feira, Abril 24, 2003
É, ou não é?
A profissão médica exige muita responsabilidade, sangue frio e capacidade de se tomar rápidas decisões.
Uma das mais importantes decisões a ser tomada, em alguns momentos na urgência, é a confiabilidade do quadro clínico do paciente.
Trocando em miúdos, é, ou não é, um grande pitti.
Pequeno adendo explicativo de termos médicos:
Pitti, assim mesmo, com dois tês no final, é uma disfunção neuro-endócrino-psico-gastro-cardio-pulmonar-hepato-espleno-renal-motora-funcional. Ou seja, uma danada de uma frescura. Descrito pelo neurologista francês J. F. Felix Babinky, o "pitiatismo" é um estado de histeria causado pela sugestão. Isso torna o paciente passível de fácil cura pela persuasão.
Eis então que, quando o doente chega infartando, você deve, ou não, manda-lo às favas.
Um boa saída é a análise da associação de sintomas, exemplo: Um paciente chega com dor no peito, apertando o coração e fazendo careta. Forte candidato a um eletrocardiograma. Se, porém, alem disso o camarada está babando, tendo uma crise convulsiva hollywoodiana, virando os olhos, tremendo as pernas e pedindo socorro, "ai meu Deus do Céu" e etc, ele é um bom candidato a um placebo.
E aí entra a técnica de suave e educada persuasão.
Certa feita, um residente atendia no Pronto Socorro de um hospital público quando chega um paciente convulcionando. Pelas características esdrúxulas da crise, tratava-se de um claro, e muito típico, pitti.
Desprovido da boa paciência cristã que todo médico tem depois de 24 horas de plantão, o residente pegou rapidamente uma compressa, embebeu-a em tintura de iodo e encharcou a testa do paciente, gritando:
_Rápido, me tragam a serra que eu vou ter que abrir a cabeça dele, é um hematoma no cérebro!
A frase nem havia terminado, o paciente já estava correndo, do outro lado da rua, em frente ao hospital.
Se um pitti não fosse, ficaria mal o médico fingir serrar a cabeça de um paciente bem no meio de criancinhas de braço quebrado e senhoras que caíram da escada.
Todavia, apesar de questionáveis, a propedêutica e o tratamento foram eficazes e, sem dúvida, muito eficientes...
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6:21 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Terça-feira, Abril 22, 2003
Longas Madeixas
As fatalidades do Pronto Socorro têm lá sua ironia.
É um bom local para se analisar as prioridades das pessoas.
Sábado, dia 19, horário de visitação dos familiares à sala de politraumatizados.
Lá uma mulher recebe inúmeras visitas. A cada cinco minutos entra um casal ou um trio de familiares e amigos e observam estupefatos seu estado entristecível.
Essa mesma senhorita, que neste dia deitava-se de unhas bem pintadas, brinco no nariz, anéis, centenas de pontos em todas as partes de seu tricotomizado (leia-se raspado) couro cabeludo e uma máscara de oxigênio no rosto, na noite de sexta-feira voltava feliz de uma balada, em um carro, com mais quatro pessoas.
O senhor motorista, agora na maca ao lado, entubado e em coma profundo, no momento resolveu arriscar a vida de seus companheiros e disputar, masculamente, um "pega", no seu possante escorte 92.
Para o infortúnio dos bens públicos, um poste desavisado cruzou logo em frente do automóvel, submetendo todos a uma súbita desaceleração e colisão com ferragens distorcidas do carro, o que não é lá muito bom para o organismo humano.
Dois deles cruzaram a linha da vida neste exato momento, indo, para onde os japoneses chamam de ¿o grande vazio¿.
Já no Sábado, parece que outro se foi.
O motorista estava, até então, entre a vida e a morte, ligado a aparelhos no Pronto Socorro.
Dessa forma, a mulher sortuda, que se encontrava extubada, acordada, apesar de meio grogue, e muito bem viva, nos mostrava que seria a única que sairia desse acidente com vida e relativamente poucas, ou nenhuma seqüela.
Uma alegria para sua família.
Nesse momento, olhávamos tocados os familiares chorosos que a visitavam, achando que temiam pelo desfecho desse acidente sobre sua saúde, quando ouvimos a frase que nos deixou abismados.
Após olhar para a cabeça raspada da mulher, uma outra senhora, acompanhada de outra ainda, saiu da sala para fazer seu único comentário em meio a prantos:
_Meu Deus, rasparam a cabeça dela. O cabelo dela era tão lindo!
É estranho o que nossa mente faz para afastar de nós a tristeza que, às vezes, é a realidade...
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11:03 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Domingo, Abril 20, 2003
Peculiaridades dos Miolos.
Parte 1
A caxola é, ha muito, ditada como a grande mandatária do ser.
Eis aí um bom motivo pra se usar um capacete até pra dormir no colinho de seu vovô.
Qualquer crock, craft, bum, pow... adeus pequena noção de individualidade e autonomia sobre seus imaculados atos...
13 de Setembro de 1848. Phineas Gage dinamitava o campo por onde passaria a linha de trem da "Rutland and Burlington Rail Road", em Vermont.
Enquanto trabalhava feliz e contente, o desafortunado foi atingido estilhaços de uma explosão acidental. Uma barra de ferro de mais de um metro de comprimento penetrou sob seu arco zigomático, perfurou o orbital na base do crânio e saiu pelo osso parietal. Trocando em miúdos, entrou na bochecha e saiu pelo topo da testa. A barra de ferro fez seu caminho em sua cabeça, e aterrissou 80 metros à frente.
Incrivelmente, o caboclo nem sequer perdeu a consciência, não teve nenhum sangramento significativo, e sobreviveu tranqüilamente ao ocorrido, apesar de seu lobo frontal esquerdo estar praticamente destruído. Após dez semanas de internação, Phineas voltou feliz e saltitante para seu doce lar.
Alguns meses depois do ocorrido, Phineas estava tão bem que já podia voltar ao seu antigo trabalho. Todavia, sua personalidade havia mudado tanto que seus empregadores não estavam dispostos a empregar-lhe novamente.
Antes do acidente ele tinha sido o capataz mais capaz e eficiente, com uma mente bem equilibrada, e que foi olhado em como um empresário inteligente astuto. Ele era agora espasmódico, irreverente, e grosseiramente profano, mostrando pequena deferência para os companheiros dele. Ele também era impaciente e obstinado, contudo caprichoso e vacilando, impossibilitado de seguir em quaisquer dos planos que ele estabeleceu para seu futuro. Seus amigos disseram que ele não era mais Gage.
Até onde se sabe, Phineas nunca mais trabalhou na empresa de trens. Ele se aventurou por alguns outros serviços, nos quais não durou muito tempo. Aproximadamente em 1859, depois que sua saúde começou a falhar, ele foi para São Francisco, viver com sua mãe. Depois que recuperou sua saúde, trabalhou em uma fazenda ao sul dessa cidade. Em 1860 de fevereiro, ele começou a ter ataques apoplético epilépticos e, como nós sabemos do Diretor Funerário e dos registros do cemitério, ele morreu em 21 de maio de 1860.
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5:57 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Particularidades dos Miolos
Parte 2
O mais interessante a respeito da história desse homem é que ele foi o primeiro paciente neurológico do mundo. O fato de haver sobrevivido ao acidente por tanto tempo, deixou uma série de fatos notáveis a seu respeito. Muito é dito acerca de sua vida após o ocorrido. Dizem que Gage se apresentava em circos como uma aberração, se exibia em várias cidades da Nova Inglaterra e contava estórias absurdas a seu respeito.
Algumas peculiaridades sobre seu comportamento são notáveis. Devido a sua lesão no lobo frontal, Phineas perdeu o senso de convívio em comunidade. Desse modo, fazia o que lhe desse na cabeça, à hora que queria. Não importa se estivesse em uma festa, na fila do banco ou na casa de um amigo, se sentia vontade de defecar, abaixava a calça na maior naturalidade, cagava o chão todo, vestia-se novamente e continuava o papo com a maior naturalidade. Perdeu, também, qualquer inibição sexual. Numa época tão pudica, falava abertamente de sexo com todos e se masturbava em público como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Ele perdeu, também, um pouco da noção da realidade. Apesar de ser muito inteligente, investia todo seu dinheiro em negócios mirabolantes, nos quais usava todo seu tempo.
Phineas Gage foi o primeiro paciente a ser lobotomisado, e o foi ao acaso. Sua infeliz vida e suas desventuradas aventuras foram de enorme contribuição para a neurologia atual. A noção de comando do cérebro sobre o ego foi absolutamente afirmada.
Será que você realmente é o que pensa que é, ou só é assim pelo modo em que suas conexões neurais estão estabelecidas nesse momento?
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5:57 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Terça-feira, Abril 15, 2003
Nada de Novo no Front
Não sei de vocês, mas me parece que a Guerra do Iraque é uma velha estória, contada antecipadamente por contadores sensacionalistas.
Desde antes de tudo acontecer, figurinhas tarimbadas de nosso (digo do mundo) meio de comunicação já fazem previsões. Eles especularam acerca da opinião pública, perda de civis, perda de soldados da coalizão, barreiras físicas e guerra urbana.
Contaram toda a estória de tudo que aconteceria, publicaram estudos e debateram questões de guerra, ainda na primeira semana de ataques.
Nada foi como disseram, mas também não foi diferente.
O fanfarrão do Saddam, ostentando orgulhosamente suas bigodas, de um lado. O paranóico dabliubush lançando mísseis, bombas, balas, canivetes e busca-pés do outro.
E assim impera a política do "eles que são doidos que se entendam".
Ha semanas os soldados americanos e britânicos avançam centímetro por centímetro por terra, conquistam cidade por cidade, fazem refém por refém, e nada muda, nada acontece.
A guerra hoje se tornou mais entediante que o trabalho de um funcionário público. Uma rotina maçante que já tem até hora marcada e pausa para o café.
O pior é que parece infinita. Pense bem, a Guerra acabou? O Saddam sumiu, Baghdad foi tomada e só falta abrir um Mc Donnald´s na esquina do palácio imperial, mas mesmo assim os soldados batem seu ponto e continuam conquistando, avançando e fazendo reféns.
Ou o território do Iraque não tem fim; ou as tropas já passaram pelo Iran, Paquistão, China e estão fazendo cera em Burma, enganando todos; ou o pior, diante do término da Guerra as estações de televisão, temendo a perda da audiência, passam todos os dias a mesma notícia, com uma transmissão tão chiada que ninguém percebe, pois não entendia nada mesmo...
E a guerra continua, até quando, não se sabe....
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11:03 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Segunda-feira, Abril 14, 2003
Maconha
HPS
01:37 PM.
Paciente feminina, vítima de atropelamento. Usuária de maconha, entorpecida.
Sem traumas aparentes, sem dificuldade respiratória e com escala de coma indeterminável.
A paciente deu entrada neste hospital caminhando. Não se deixou ser examinada, se recusou a deitar na maca.
Procurou desesperadamente por sua maconha perdida. Acusou a equipe de paramédicos e os policiais de plantão por terem roubado seu "bagulho".
Levantou da cama onde estava sentada e foi tirar satisfações com a polícia quanto a sua maconha.
Voltou sem êxito.
Mediante a falta da droga, a doente passou a exigir quantias de dinheiro da equipe médica, girando em torno de um a três reais, alegando serem para comprar remédio.
Passado um tempo em confusão, a paciente evadiu o hospital, recusando-se ser examinada ou tratada.
Iscrivido às
11:01 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Bicicleta
Hospital de Pronto Socorro,
6,47 PM.
Mulher vítima de queda de bicicleta com colisão frontal em muro.
Vias aéreas pérvias, coluna cervical a aguardar avaliação do Raio X.
Murmúrios vesiculares pulmonares fisiológicos.
PA: 160 / 100 mm Hg, frequência cardíaca 97bpm.
Escala de coma, Glasgow 15.
Dores na coluna cervico-torácica, dilaceração facial em múltiplas feridas cortantes e dilaceradas.
_O que aconteceu?
_Ah, doutor, minha bicicleta perdeu o freio.
_E você foi atropelada?
_Não, nós batemos em um muro, enquanto descíamos uma rua.
_Nós?
_É, eu e minha filha, que estava na cadeirinha na frente da bicicleta.
_E onde ela está?
_Não sei, você não poderia procurar e me dizer para onde ela foi? Estou preocupada.
O olhar de uma senhorita que me observava conversar com a doente já dizia o que sua boca estava prestes a sussurrar. "Morreu na hora".
Infelizmente, minha covardia me impedia de sequer pensar em algum meio para contar a notícia para a senhora.
_Olha, ela deve estar na pediatria, espere aí pelo seu Raio X.
_Mas doutor, pelo menos me vire de lado?
_Você não pode nem mexer, temos que ter certeza de que não fraturou a coluna cervical para podermos tirar esse seu colar.
Antes mesmo dela ir para o Raio X, fui-me embora.
Meu horário acabara. Deixei o trauma covardemente.
Fugi. Daquele sofrimento, mergulhei em minha trabalhada indiferença. Fui-me embora dali, para o meu mundo diário de "como-se-isso-não-tivesse-acontecido".
Mas aconteceu, sempre acontece, e continuará acontendo. E não há nada que se possa fazer...
E cada vez mais me contento com o fato de que, provavelmente, nunca poderei realmente dizer, para aquela mãe, onde foi sua filha. Ou se realmente há algum lugar para onde ela possa ter ido.
Só espero que, para seu mínimo conforto, essa mãe tenha alguma certeza desse tal lugar...
Iscrivido às
10:30 PM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Domingo, Abril 13, 2003
Corram, para onde puderem...
Não sei o porquê dessa paranóia que se instala sempre que os astrônomos descobrem algo diferente no espaço...
Outro dia, um carinha encontrou sinais que representariam a ocorrência de um "evento cósmico de proporções colossais".
É que uma das maiores estrelas da Via Láctea - a mais próxima da Terra com essas dimensões - entrou em colapso, "ameaçando afetar seriamente a vida no planeta azul."
Tudo bem, ela fez bum, emitindo raios gama que podem afetar seriamente a vida na Terra, quando aqui chegarem... Daqui a oito mil anos...
Contudo, porém, todavia, no entanto, acho eu que isso não são lá motivos pra se esquentar a perereca. Se o humor do lord dabliubush sofrer um colapso antes, podemos ser atingidos por fatores de proporções muito mais catastróficas que uma explosão de uma estrelinha lá longe.
Iscrivido às
11:47 AM
pelo Engenhoso Fidalgo
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Ode (o) aos Tribalistas
Quando digo isso, me tratam como se um refugiado de Alfa Centauro. As pessoas não compreendem a dimensão do desastre que esses carinhas representam.
Segunda Feira, no meu carro:
"Thu ru ru ru ru ru ru ru, ru ru ru ru ru ru ru..."
Mudo a estação do rádio imediatamente...
"Ô King, eram os tribalistas, vc não viu?"
"Vi..."
"Mas então por que mudou de canal?"
"Porque eu ODEIO eles!"
"Como assim? Os Tribalistas mesmo?!"
"Sim..."
"Mas tem a Marisa Monte!"
"Lésbica nariguda, com jeito de hippie, cabelo mal lavado e voz esgarniçada."
"E o Carlinhos Brown..."
"Definitivamente um misto de lêmure asiático e gorila neurótico."
"E o Arnaldo Antunes?"
"O da cuia na cabeça? Só de já ter feito parte dos Titãs, eu odeio ele!"
"Ouviu mais alguma coisa dos Tribalistas?"
"Sim."
"Não gostou nem um pouco?"
"Nem um pouquinho."
"Porque?"
"Num sei, bom gosto, eu acho..."
Iscrivido às
11:06 AM
pelo Engenhoso Fidalgo
Diga:
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